Escritos Sem Rótulos
Por Elis Franco

Publicada em 18 de Outubro de 2017 ás 11:31:57

Perdas e ganhos

 A vida, como um trem em contínua viagem, às vezes exige de nós que desçamos do vagão para, lá adiante, percorrermos um novo caminho. As partidas geralmente deixam uma pontinha de dor, mas nem sempre elas são motivo de lamentação, sobretudo quando temos consciência de que vivemos o suficiente aquilo que estamos abandonando definitiva ou temporariamente.
 
         Partir não é o problema maior. O que potencializa a dor da partida é quando, por algum motivo, não queremos ir, quando desejamos permanecer, no entanto, é inevitável prosseguir, visto não cabermos mais no vagão onde estamos. Viver passa a ser então um dilema: ficar e sentir-se sufocado ou partir e sentir o vazio da não presença? Não é fácil decidir, todavia, é preciso correr o risco da decisão equivocada.
 
         Digo risco, pois, apesar de todas as possíveis análises realizadas, nada nos garante um futuro melhor do que o presente que abandonamos ou, por outras tantas razões, decidimos não abandonar. E isso se dá em diferentes esferas da nossa vida: é aquela profissão que já não nos preenche, ou preenche, mas não remunera bem; é aquele ambiente de trabalho tão sonhado, porém, sem nos fazer sentir a potência nossa enquanto profissional e, talvez, a pior partida: deixar para trás alguém a quem supomos amar, mas que não há mais como conciliar o amor e vida compartilhada.
 
         Esta viagem que é a vida, de fato, não é tarefa a se cumprir sem uma dose de medo diante das incertezas. O grande Guimarães Rosa acertou ao dizer que “Viver é muito perigoso”. Há perigo em ficar, há perigo em partir. Contudo, mais perigoso é deixar o medo nos paralizar, nos tirar o brilho dos olhos. Mais perigoso é decidir ficar ou partir sem compreender que toda decisão resulta em perdas e ganhos.
 

         A gente sabe que não é fácil, por isso dói tanto. Não somos Clarice Lispector ao escrever “O medo sempre me guiou para o que eu quero”. Às vezes, o medo nos finca onde não queríamos mais continuar. Ou, também, o medo de perder pode nos fazer ir ficando com as coisas e pessoas que realmente importam, ainda que nossas justificativas sejam outras. Há apenas duas alternativas: permanecer ou descer do vagão. Minto. Há como não pegar o trem, mas isso é deixar de viver. 

Por Elis Franco

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