Blog do Danylo
Por Danylo Martins

Publicada em 26 de Abril de 2016 ás 12:00:07

Micareta Feirense: uma festa entre partes

Cresci e evolui vendo as festas de largo tomarem dimensão, alastrarem os quatro cantos do Brasil afora com seus trios elétricos, com seus tambores, batuques, músicas eletrônicas que deixam o coração de qualquer pessoa querendo sair pela boca, seja por ter encontrado um novo amor na festa, seja por ter tomado aquele porre marcante, seja lá também pela música e volume alto dos aparelhos de som que embalavam as danças e coreografias ditas. 

Toda e qualquer festa seja ela a mais mísera possível (se é que ainda existem festas míseras, sendo que a importância é dada a quem faz a festa, seu propósito e a quem interessa) sempre tem a evolução natural, em tamanho, em valor, em patrocínio, em público, enfim, ela evolui, cresce. Apenas uma festa evoluiu, teve seu tempo áureo, e logo em seguida vem tendo sua decaída, seu regresso, seu retrocesso até chegar o seu fim, ou seu breve fim, sei lá como chamar. 

A Micareta de Feira de Santana na época que nasci, já encontrava-se no seu melhor tempo. Anúncios de festas nos grandes clubes com seus famosos bailes já dava a prévia do melhor da festa que ainda estava por vir, artistas globais, grandes carnavalescos de escolas de samba do Rio de Janeiro e São Paulo com suas fantasias glamourosas, já misturavam-se em meio a feirenses para condecorar de beleza o salão de tais clubes da cidade, as fanfarras já afinavam seus instrumentos tempos antes nas ditas festas pré-micaretescas, as difusoras já preparavam seus repertórios para anunciar as músicas que mais tocariam nas ruas, por toda a parte da cidade encontravam-se adereços, fantasias, enfeites, lâmpadas e cartazes para mostrar aos visitantes que a maior festa pós-carnaval do mundo já estaria prestes a dar uma nova cara a cidade... o comércio vivia lotado dias antes, pois saberia que todos iriam ver de perto a tão sonhada micareta, os familiares dos moradores da cidade já avisavam com antecedência, que deixassem seus lugares nas casas pois já era certo a vinda dessas pessoas para sentir o clima que até então contagiava e soltava burburinhos em certos cantos do país. Todos os bairros da cidade comentavam da festa, tentavam a todo custo entrosar-se com pessoas influentes, para estar ao lado de celebridades nas tais festas, nos tais blocos, todos trabalhando dobrado para comprar sua fantasia, sua “mortalha” assim chamada a vestimenta da festa que deu origem ao “abadá”, acordava-se com os vizinhos com seus aparelhos de som em suas casas, tocando as músicas da micareta, dentre estas algumas marchinhas, que já mostrava o ritmo que ditava até então a festa após o carnaval, respirava-se micareta desde antes. Sabia-se que a festa iria vir e ficava-se a espera de tudo isso acontecer, da melhor forma.... e, de repente, abre-se os olhos e observase que nada mais disso acontece, que a festa vai chegar e muitos pensam mesmo em estar longe... acabou! 

A Micareta de Feira tornou-se algo que nem o mais sábio cientista saberá explicar. O clima da festa é hoje contagiado pela insegurança, pela falta de respeito, pelo capitalismo selvagem que assola até a melhor das festas, ditando suas regras, e colocando nela pessoas ligadas a ditos grupos políticos para prestigiarem o que não existe, para mostrar o que não tem e para mentir para o público, envolvendo a mídia com seus anúncios falsificados de alegria contagiante que sequer tem o poder de abrilhantar os olhos de quem vê. Os antigos bailes infantis que aconteciam e que faziam as crianças ter vontade de ver as colombinas, o pierrot, de jogar confetes, hoje em dia já diz que a festa não comporta crianças, pela tamanha barbaridade que se vê em eventos como esses. A festa cedeu o seu público para os camarotes, que hoje em dia agregam as atrações, os artistas, “segurança”, comida e bebida em um espaço restrito a quem pode pagar por algo que se teria grátis em tempos atrás, não se vê mais enfeites, exceto os que os patrocinadores da festa colocam, com seus anúncios capitalistas para venderem seus produtos e que fazem alusão quase nenhuma à micareta, o comércio além de capitalista, desumano, pois já restringe os seus funcionários de participarem da festa, mesmo o município já possuindo e outorgando a Lei 2.299 de 11 de dezembro de 2001 que cita: 

Art. 2º - Ao pactuarem as datas especiais de funcionamento dos estabelecimentos comerciais, as entidades sindicais, mencionadas no artigo anterior, preservarão como proibida expressamente a atividade das empresas durante o período fixado para realização dos festejos Micaretescos, a partir das 14 h de sexta-feira até o domingo. 

Simplesmente fantástico a transformação da festa do que era antes para o que se tornou hoje, seja lá por conta do poderio público, seja lá por conta das pessoas desqualificadas que tentam dar corpo à festa, mesmo com todo o aparato tecnológico que existe, com toda a formação de pessoas nesse segmento que existe, e ainda assim temos na coordenação pessoas despreparadas para lidar com uma festa que envolve proporções gigantescas, e que traz um retorno financeiro favorável a quem faz opção comercial no circuito festivo. Os artistas que almejavam o sucesso, já ficavam de olho micareta para que pudesse expor a sua música para apreciação do público, e se assim fosse, repercutia em todo o Brasil, chegando também alguns a fazer sucesso internacional por conta disso.. e hoje? Hoje em dia encontram-se artistas que mesmo alavancando sua carreira na cidade, pedem 500, 700 mil reais para vir tocar no circuito que não passa de 3 km, a uma velocidade que de bicicleta fica até difícil de acompanhar. Os camarotes que vinham sendo comercializados para a família e amigos com 12 ou 20 pessoas, já não existem mais, isso por conta de absurdos cobrados pela prefeitura para a empresa montadora das estruturas explorar o circuito da folia, que sempre saíram no prejuízo e de 400 camarotes, só se viam 100 utilizados. Todos os anos, recebe-se promessa de que a festa iria começar mais cedo, mas se for analisar, começar cedo pra que? Não se tem atrações, nem os artistas da terra fazem mais questão de participar, de ter músicas boas, pois além de receber com 90 dias o cachê (os que conseguem receber), ainda recebem uma estrutura precária tanto no palco fixo, quanto nos trios elétricos, que também vão a uma velocidade que quando se começa uma música, não se termina mais no ponto que se encontra, pois já estão no final do percurso... e por falar em percurso, a cultura da cidade encontra-se, na micareta, em um lugar onde ninguém prestigia, em um lugar separado, e ainda assim com uma mísera quantia cedida pela prefeitura para confeccionarem seus adereços, que eram o maior charme e brilhantismo da festa. Hoje em dia fazem um desfile que colocam até crianças, para mostrar a ninguém, para trazer nada e para ainda servir de piada para os que não conhecem a cultura e os redutos negros da cidade. Se por ventura um turista vier para tentar conhecer algo, não tem nem o que conhecer, pois não existe um espaço aconchegante para mostrar as comidas típicas do nordeste, nem os artefatos que os artistas produzem na cidade para levar de lembrança, e recordação de uma festa inesquecível... 

A festa está definhando aos poucos, embora a equipe comandante afirma que a cada ano se vê algo de bom, em um circuito que a cada festa se muda algo, que nem extensão para festa tem, quem em todo lugar é no centro, atrações que não fazem questão de estar aqui, segurança despreparada que sequer olham o que vão fazer ou em quem vai bater. A maior estrela da festa hoje em dia é a cerveja, que, os méritos da festa dá-se a cervejaria que melhor ceder patrocínio, e, assim vencendo, ganha os direitos de vender seus produtos no circuito da festa, sem ao menos respeitar o gosto do cidadão ao que se quer beber e o pior de tudo, ferindo a Constituição Federal, obrigando você a consumir algo que não é de seu gosto! 

O que esperar agora? Bem... o brasileiro não desiste nunca, e o sonho por ter ainda festas pré-micaretescas para embalar a nossa tão sonhada e gostosa festa nos tempos de ouro, é sempre mais um sonho, embora hoje já não existam mais clubes, ainda pode-se contar com a força dos que se dizem amigos dos governantes, e da boa iniciativa de pessoas de bom senso, através das feijoadas, das festas de largo e até das festas que a mídia poderia propor para trazer de volta o clima irradiante da micareta e dar oportunidade aqueles que nunca sequer puderam sentir o clima envolvente que trazia consigo a vontade de estar presente na festa em si. Precisa-se também de coragem, para brigar por algo que se sabe não estar indo bem, excluir os responsáveis e trazer gente qualificada com experiência para saber os pontos bons, trazer idéias e excluir os pontos negativos, ouvindo sim a crítica e absorvendo a voz da população que sabe o que é festa de bom gosto, com sugestões do Brasil afora, e quem sabe, em uma hipótese final, ceder a festa às cervejarias para que pudessem dividir o percurso para venda de várias marcas de cerveja e assim, absorver cotas diferentes e distintas para reorganizar e reavaliar a festa, dando um passo muito grande no horizonte. 

Por Danylo Martins

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